sábado, 23 de novembro de 2013

Ao poeta Antonio Pereira - Brás Costa

Ao poeta Antonio Pereira
O Poeta Antônio Pereira uma dia aconselhou:

Quem quiser plantar saudade,
Escalde bem a semente
E plante na terra seca
Em dia de sol bem quente,
Pois se plantar no molhado,
Ela nasce e mata a gente..

Vivendo lá longe nas europas, com um cadinho de saudade do seu sertão que quer tanto bem, o Padroeta Brás Costa, respondeu do jeito que se dá:

Ao poeta Antonio Pereira

Caro poeta, confesso, não segui corretamente
O seu poético conselho e não plantei a semente
Ao invés de escaldá-la
Eu preferi não plantá-la
Pensando que a evitasse
Mas para surpresa minha
Na cova do amor qu'eu tinha
Um pé de saudade nasce...

É, meu poeta, a saudade nasce sem ninguem plantar
E quanto a sua semente, é mesmo inutil escaldar
Mesmo que escalde a semente
Que a plante em terreno quente
E que não chova um sereno
Como pé de carrapicho
Ela faz esse capricho
Nasce e alastra o terreno.

Mas, obrigado poeta, pelo conselho no verso
Não se ofenda se eu sigo um caminho diverso
Vou plantá-la num baxio
Perto das margens dum rio
Onde a terra é irrigada
Já que eu não posso com ela
Vou assim vivendo dela
Pra morrer dessa danada.

Brás Costa, Górdoba, outubro de 2011.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A Música - Charles Baudelaire

A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Fascinação ( Fascination - 1957 ) - Carlos Galhardo

Os sonhos mais lindos sonhei.
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar, tonto de emoção,
Com sofreguidão mil venturas previ.

O teu corpo é luz, sedução,
Poema divino cheio de esplendor.
Teu sorriso prende, inebria e entontece.
És fascinação, amor.

Os sonhos mais lindos sonhei.
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar, tonto de emoção,
Com sofreguidão mil venturas previ.

O teu corpo é luz, sedução,
Poema divino cheio de esplendor.
Teu sorriso prende, inebria e entontece.
És fascinação, amor.

sábado, 19 de outubro de 2013

Monólogo de Orfeu - Vinicius de Moraes

Eu vivo a busca infinita, sou dor sem cura! Desfruto de todos os sentimentos... Amor e dor, alegria e tristeza, riso e choro, esperança e desilusão, vida e morte... Orpheu em minha alma habita! Meus gritos são silenciosos como também são meus carinhos, a parte de mim que é desejo desperta nas horas em que mais fraquejo! A parte de mim que é dor se tornou meu trabalho, nela labuto todos os dias com a ilusão de lapida- lá. O meu instrumento de trabalho é amor. De minha alma sai um canto desafinado que entorpece a quem escuta, minha lira tem um jeito de quem está perdido em um caminho sem volta, não há paredes, não há estradas, não há luz nem referentes, há apenas passos desvairados que me conduz querendo voltar...

Este foi o primeiro post no "passosdesvairados" em idos de 2009... A influência que o poetinha exerce sobre mim é indescritível... Sua sensibilidade, sua inteligência e elegância, a capacidade de rasgar-se em versos e a coragem de externalizar tudo quanto pode sentir, fez de mim mais um sonhador, sofrido sonhador que encara o "amor" do século XXI...

Poeta, não me ariscaria a dizer mais do que disse, faltou apenas meu muito obrigado por me permitir sonhar, e, saiba você que monólogo de Orfeu mudou meu mundo.

"A existência sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu és a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo,
minha amiga mais querida!

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