A estupidez, muitas vezes, não é a ausência de inteligência, deficiência cognitiva ou falta de informação. É antes, uma abdicação deliberada, ainda que inconsciente, da capacidade de pensar. É a escolha de não ver o que está diante dos olhos.
Contexto histórico importa!
Solomon Asch, testemunhando os julgamentos de Nuremberg (1945/46), observou homens saudáveis, sem qualquer déficit perceptível, explicarem como seguiram ordens absurdas. Em 1951, apresenta os resultados dos Experimentos de conformidade de Asch.
CONFORMIDADE NORMATIVA: Sabe-se que a resposta do grupo está errada. Nossa percepção permanece intacta, nossa cognição funcionando normalmente mas concordamos mesmo assim para evitar rejeição social, ridicularização ou conflito. É a estupidez social por excelência. Preservamos a harmonia do grupo, nossa aceitação, nossa imagem, ao custo deliberado da verdade. É uma barganha consciente. Verdade em troca de pertencimento.
CONFORMIDADE INFORMACIONAL: Duvida-se da própria percepção. A discrepância entre o que vemos e o que todos afirmam ver, cria dissonância cognitiva insuportável. A inteligência se curva diante da suposta sabedoria coletiva, o consenso se torna evidência.
CONFORMIDADE POR EXAUSTÃO COGNITIVA: Depois de discordar repetidamente e ser constantemente contrariado, desiste-se. Não porque acredita no grupo, não porque teme rejeição, mas porque é cognitivamente cansativo manter-se em oposição constante. É mais fácil ceder, seguir o fluxo e guardar energia mental para batalhas mais importantes.
Friedrich Nietzsche
Além do bem e do mal: "A loucura é rara em indivíduos mas em grupos, partidos e épocas, é a regra.
Nietzsche não tinha experimentos controlados mas contava com sua percepção aguda sobre a psicologia do conformismo. Para o filósofo alemão a conformidade não era meramente um erro cognitivo ou uma fragilidade psicológica ocasional, era a condição fundamental do que ele denominou de Moralidade de rebanho. A tendência humana de buscar segurança no número, de substituir julgamento individual por consenso coletivo, de trocar autenticidade por pertencimento.
A gaia ciência: "A voz do rebanho dentro de nós ainda diz: "Nós deveríamos ser iguais, não diferentes.""
Essa voz não é imposta externamente, ela habita dentro de cada um de nós sussurrando que desviar-se do grupo é perigoso, suspeito, talvez até imoral. A conformidade se disfarça de virtude, lealdade, humildade, espírito de equipe.
O velho Nietzsche identificou algo que os experimentos de Asch confirmariam empiricamente. A inteligência individual frequentemente se curva, não porque seja fraca, mas porque o peso psicológico de estar sozinho é insuportável.
Assim falou Zaratustra: "Vocês tem seu jeito de pensar, mas a maioria despreza aquele que pensa diferente. Vocês precisam aprender a suportar que sejam desprezados."
O pensamento independente não é apenas uma questão individual mas uma prova de caráter. Requer não apenas capacidade cognitiva mas força psicológica para suportar isolamento.
Humano demasiado humano: "O espírito livre é aquele que pensa diferente do que se esperaria dele com base em sua origem, ambiente, posição e função, ou com base nas opiniões dominantes do seu tempo."
Conceito Nietzschiano "Espírito livre" é essencialmente o antídoto filosófico para a Conformidade de Asch.
Mas Nietsche não romantiza tal posição: "Aquele diferente de mim não me exalta a inteligência, me exalta a paciência". O pensamento independente irrita, incomoda, cria fricção social, por isso mesmo a maioria prefere não exercê-lo.
O que torna à analise do filósofo alemão particularmente relevante para o experimento de Asch é sua compreensão que Conformidade não precisa de tiranos ou estruturas totalitárias explícitas para prosperar. Ela opera através de mecanismos sutis internalizados.
Aurora: "Quando cem homens estão juntos, cada um perde a sua razão e ganha outra."
Racionalidades coletivas que anulam percepções individuais perfeitamente corretas. O grupo desenvolve sua própria lógica, sua própria realidade e o indivíduo que resiste paga o preço em ansiedade, dúvida e exclusão social.
Uma tentação reconfortante é imaginar que pessoas realmente inteligentes estariam imunes a esses efeitos. Que QI elevado, pensamento crítico, expertise em determinada área, educação superior e treinamento seriam antídotos confiáveis contra a conformidade, que filósofos, cientistas e acadêmicos estariam naturalmente protegidos. Pessoas inteligentes são muitas vezes mais hábeis em racionalizar decisões conformistas. Elas não simplesmente sedem a pressão do grupo de maneira passiva ou irreflexiva, ao invés disso constroem justificativas elaboradas, argumentos sofisticados, narrativas complexas para explicar porque concordar com o consenso é na verdade a posição mais racional, prudente e intelectualmente defensável. A inteligência se torna serva da conformidade não sua crítica.
Há estudos que mostram que pessoas com maior capacidade de raciocínio analítico são melhores em encontrar falhas em evidências que contradizem suas crenças políticas prévias mas não melhores em encontrar falhas em evidências que a confirmam.
Ser expulso do grupo neandertal era morte quase certa. Discordar do grupo era perigoso, manter coesão social era questão de sobrevivência. Essa marca evolutiva permanece, codificada em circuitos neurais profundos.
Vivemos em tempos de câmaras de eco digitais algoritmicamente reforçadas, polarizações políticas sem precedentes, movimentos de massa que se consolidam em torno de narrativas empiricamente frágeis mas socialmente coesas.
As redes sociais criaram um ambiente perfeito para os efeitos que Asch documentou. Feeds personalizados nos mostram principalmente opiniões que já concordamos. Algoritmos de engajamento amplificam consensos aparentes, métricas de likes, shares e retuítes tornam visível, quantificável e inescapável o grau de conformidade ou dissidência.
A pressão agora vem de milhares de sinais sociais constantes, de enxames digitais que recompensam concordância e punem desvio. A inteligência se torna estúpida não porque para de funcionar, não porque os circuitos cognitivos falham, mas porque é deliberadamente direcionada para o objetivo errado. Não buscar a verdade, não construir modelos precisos da realidade mas preservar pertencimento, sinalizar lealdade tribal, manter status dentro do grupo. A Conformidade nos ensina obediência mas nos priva da capacidade mais fundamental, a autoridade sobre nosso próprio julgamento.
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=JL_--sZPxqg

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