segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Solidão - Francisco Buarque de Holanda

Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida. .. Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma....

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Lapso - Rancho da Goiabada

"A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida", é poetinha minhas vivências me fazem repetir incansavelmente essa frase, obrigado!
Um casal (sem a hipocrisia medíocre habitual dos que fingem ser casais), um convite, um lar, dois radicados, samba!
Sábado a noite estava marcada uma reunião de colegas para cantar uns sambinhas... raramente fico doente, mas eu estava febril, sentindo aqueles calafrios cabulosos (que arrepiam até os pelos das orelhas)... Tomei um banho, coloquei aquele moletom maroto de capuz, e fui, ficar em casa sozinho rachando de febre não era a melhor opção, até ae sem novidades!
Cheguei na casa desse casal... aquela casa com um puta recuo, ou seja, um quintal "bitelão", uma hortinha marota... Ele de BH ela de SP... radicados há 3 anos em campina grande, cidade boa.
Alguns (vários, rs) tragos de cachaça e um casal de repertório enfezado, confesso que fiquei surpreso!
O anfitrião, mano Tiago Perdigão, com seu pinho no peito rememorando várias musguinhas que "a gente gosta" cantou "Favela - Padeirinho" que música linda, mas é um samba de terreiro e que eu nunca (em 6 anos em campina grande) tinha visto alguém cantar, confesso que fiquei emocionado, e assim prosseguiram as surpresas, entramos no repertório do Geraldo Filme, outro gênio, pouco conhecido e valorizado, e meus zoinhos brilhavam, até arrisquei cantar (os anfitriões,que estão nessa lista, me desculpem eu definitivamente não sei cantar rs) mas eu estava tão a vontade, me sentindo em casa...
O ápice da noite foi quando o mano Perdigão cantou uma musga que "abalou bangu", simplesmente bagunçou meu coreto.
Essa canção que o mano Perdigão cantou foi-me apresentada em 1992 (estava com 9 anos) pela professora Nilza, ela não apresentou apenas, mas nos fez interpretar a musga. Ah, como sou grato!
Quer dizer, na verdade, foram duas musgas mas a primeira que ela passou o exercício de interpretação eu devia ter algum compromisso inadiável, porque eu faltei rs, era "Pau de arara'. Mas pra minha sorte na segunda eu estava lá, junto com o Chandela (que também está aqui na lista 😍). Foi incrível a viagem nas nossas cabecinhas férteis, fala ae Chandela!
Em seguida eu pedi que ela me gravasse um K7, dois dias depois ele me presenteou e foi a a responsável direta por eu me interessar por MPB. Eu nunca descobri quais eram as musgas daquele K7, exceto a primeira, que eu escutava, ouvia e voltava a fita K7 com a bic, e escutava e ouvia incansavelmente... não necessariamente nessa ordem, rs. A musga do K7 era construção... E eu construia e reconstruia aquela viagem quase que psicodélica da letra, poxa numa mente de 9 anos, aquela era fonte de inspiração pra "fantástico mundo de Bob" nenhum por defeito. mesmo eu não entendo nada, mas ela apresenta muitos elementos imagináveis.
Nas voltas que a vida dá, a professora Nilza que ainda morou na rua da escola por anos, foi traída pelo marido, entrou em depressão... Anos mais tarde, saindo do curso de computação (informática rs) encontro ela no prédio... Claro que eu a abordei, rs, e ela lembrou-se de mim e de outros amiguinhos, inclusive o Chandela 😊.
Na outra semana, eu já havia ensaiado em casa, e fiz questão de contar pra ela o quanto ela fora importante na minha formação, o quanto aquela interpretação e aquele K7 foi um divisor de águas na minha vida... Infelizmente não posso transmitir pra vocês em palavras as lágrimas que ela deixou rolar com um sorrisão lindo...
P.S.: Um dia no refeitório da escola, comendo polenta com carne moída, o Chandela me chamou a atenção porque eu estava com os cotovelos na mesa, e não podia. rs Acreditem se quiser, naquela escola pública padrão, essa mesma professora nos dava aula de etiqueta. Tínhamos um caderninho com essas lições. Eu o Chandela e outros amiguinhos, nessa época morávamos em barraco de madeira, essa mulher foi mesmo muito importante. Até hoje eu finjo que sou educado me valendo de várias lições que ela deu.
Rancho da goiabada é a musga em questão!
Essa musga conta muito das coisas que eu via meu pai fazendo e vivendo, é óbvio que na época eu não tinha essa leitura da situação neh, mas eu gostava dos vários elementos dela, mas hoje ela me comove imensamente justamente por conseguir enxergar que meu pai era um dos personagens daquela musga, um flagelado retirante nordestino no inicio dos anos 90, analfabeto, descriminado, sobrevivendo de biscates e tentando dar para o filho tudo o que seu pai não deu, principalmente carinho.

Os bóias-frias
Quando tomam umas biritas
Espantando a tristeza,
Sonham com bife-a-cavalo, batata-frita
E a sobremesa
É goiabada cascão com muito queijo,
Depois café, cigarro e um beijo
De uma mulata chamada
Leonor ou Dagmar...

Amar
O rádio de pilha, o fogão jacaré, a marmita, o domingo
O bar
Onde tantos iguais se reúnem e contando mentiras
Pra poder suportar...

Ai, são pais-de-santo, paus-de-araras são passistas
São flagelados, são pingentes, balconistas
Palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados,
Dançando dormindo de olhos abertos à sombra
Da alegoria dos faraós embalsamados

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