quinta-feira, 23 de março de 2023

Um sabiá diligente - Cancão

Voou pela vastidão
Mas por inexperiente  
Caiu em um alçapão  
Depois de aprisionado
Ficou mais martirizado  
Pensando no seu filhinho
Implume, sem alimento,
Exposto à chuva e ao vento
Sem poder sair do ninho.

Deram-lhe por seu abrigo
Uma pequena gaiola  
Num casebre de um mendigo  
Que só comia de esmola  
Só vivia cochilando  
Com certeza imaginando  
Sua liberdade santa Ia cantar, não podia,  
Que sua voz se perdia
Logo ao sair da garganta.

Tornou-se a pena cinzenta
Em seu profundo castigo
Na saleta fumarenta
Da casa do tal mendigo
Sempre triste, arrepiado,  
Nesse viver desolado
Ia um mês, vinha outro mês,  
Assim completou um ano
Sentindo o seu desengano  
Nunca cantou outra vez.

Dormindo, uma tarde inteira  
O pobre do passarinho
Sonhou que ia à palmeira  
Onde tinha feito o ninho  
Olhava, em frente, as campinas  
Via por trás das colinas  
A natureza sorrindo
Ao sentir a liberdade
Pensou ser realidade  
Sem saber cantou dormindo.

Depois, sonhou que voltava  
À terra dos braunais  
Por onde sempre cantava  
Junto a outros sabiás  
Pousava nas laranjeiras,
Passava nas ribanceiras  
Olhando o clarão do dia  
Voava por sobre o monte,  
Voltava a beber na fonte  
Que toda manhã bebia.

No sonho via as favelas  
Criadas nos carrascais
Voou, baixou, pousou nelas
Cantou os seus madrigais  
Voltou, e colheu orvalhos  
Que gotejavam dos galhos
Dos frondosos jiquiris  
Contente, abriu a plumagem,  
Pra receber a bafagem  
Das manhãs do seu país.

Foi à terra dos palmares  
Atravessou toda a flora
Cantou por todos lugares
Que tinha cantado outrora
Passou pelos mangueirais
E com outros sabiás
Cantou sonora canção  
O seu som melodioso
Estava mais pesaroso
Devido a sua emoção.

Viu a vinda do inverno
Nos quadrantes da paisagem
Ouviu o sussurro terno
Do bulício da folhagem
Cantava pelo arrebol,
Com o brilho morno do sol
Morrendo nos altos cumes  
Sentia, quando cantava,
Que seu coração chorava
Com mais tristeza e queixumes.

Sonhou catando semente  
Num campo vasto e risonho
Se sentia tão contente
Que sonhou que fosse um sonho
Olhava pra vastidão
Sentia no coração
Um regozijo profundo
Todas delícias sentia
Às vezes lhe parecia
Vivendo fora do mundo.

Atravessou os verdores,
Passou por entre as searas,
Cantou pelos resplendores  
Das manhãs frescas e claras
Passou por um campo vago,
Bebeu das águas de um lago,
Pousou em um arvoredo,
Entrou em um bosque escuro,
Aí sonhou um futuro  
Tão triste que teve medo.

Depois, sonhou que estava
Trancado numa gaiola
Ouvindo alguém que cantava  
Na porta, pedindo esmola.
Ao despertar de momento
Reparou seu aposento,  
Ouviu falar o mendigo
Fechou os olhos pensando
Sentiu seu íntimo chorando
No rigor do seu castigo.

Ainda em vão procurava  
Sair daquela prisão
Seu olhar denunciava
Piedade e compaixão
Ao pensar na liberdade
A mais pungente saudade
Devorava o peito seu
Assim, o cantor da mata,
Ferido da sorte ingrata,
No outro dia, morreu.

 



















 


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

What a Wonderful World - Louis Armstrong


    “Alguns de vocês jovens tem me dito ‘Hey senhor, o que você quer dizer com What a Wonderful World?’ E as guerras em todos os lugares? Você chama isso de maravilhoso? E quanto a fome e a poluição? Isso não é tão maravilhoso também.”

    Bem, que tal ouvir um velho senhor por um minuto.

Me parece que não é o mundo que é tão ruim, mas o que estamos fazendo para ele. E tudo o que eu estou dizendo é para vermos o quanto o mundo é maravilhoso se apenas lhe déssemos uma chance. Ame, querida. Ame. Esse é o segredo. Se muito mais de nós amássemos uns aos outros, nós resolveríamos muitos problemas, e então esse mundo seria ótimo. Por isso é que o velho senhor aqui continua dizendo… I see trees of green, red roses too…

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Reciclagem

Um homem que se reciclou merece andar ao lado de uma mulher que se reinventou.

Uma mulher que se curou merece evoluir ao lado de um homem que se priorizou.

Um homem que reconheceu seu valor merece passar a vida com uma mulher que se livrou de sua dor.

Uma mulher que ressuscitou das cinzas merece a presença de um homem que transcendeu suas misérias.

Um homem que se desligou da seita familiar merece o apoio de uma mulher que rompeu com os padrões de seu clã.

Uma mulher que se desenvolveu merece ser vista por um homem que se inventou.

Um homem que não tem mais medo da opinião das pessoas merece dividir seu tempo com uma mulher que não tem mais medo de ser apontada.

Uma mulher que já não se contenta com nada, merece encontrar a mais bela joia.

Um homem corajoso e sincero merece ser reconhecido e admirado por uma mulher de coragem e alma selvagem.

Uma mulher livre e com poder merece ser apoiada por um homem bom, consciencioso e pleno.

Um homem que torna sua vida um desafio merece ser amado por uma mulher que visualiza seus sonhos.

Uma mulher que aspira o melhor merece ser amada por um homem que se sente vencedor.

Um homem que vive no presente e cuida de sua mente merece ser abraçado por uma mulher que medita, canta e pula.

Uma mulher que vive ligada à sua divindade merece ser cuidada e respeitada por um homem que conhece os grandes segredos da solidão e os direitos de sua liberdade.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

O que é espaço-tempo? - Bogdan Vilicic Neto

 

 SOBRE:

"Em um nível fundamental, o universo é composto de quanta... que podem interagir uns com os outros. "

O UNIVERSO É UM SER VIVO.
Seriam estes quanta como os neurônios de nossos cérebros, e a sinapse destes quantas/neurônios ocorrem no espaço do vácuo existente entre eles, a qual chamo de energia FRIA existente entre eles?
Assim como as sinapses cerebrais ocorrem por estímulos elétricos, as sinapses dos astros e partículas ocorreriam, principalmente, por estímulos de mudanças de temperaturas e campos eletromagnéticos.
O resultado destas sinapses e um Universo em constante transformação e movimento, e esta constante transformação e movimento é o que torna o Universo um ser vivo.

SOBRE ESPAÇO TEMPO:

" por exemplo, alguém observando outra pessoa cair em um buraco negro veria essa queda como um evento extremamente lento (enquanto a pessoa caindo não). "

PROPORCIONALIDADE PODERIA SER A RESPOSTA?

HOMEM x FORMIGA.
É como relacionar uma formiga a nós humanos, quando damos um passo o tempo/espaço para cada um será diferente.

ESPAÇO
A formiga terá que dar aproximadamente 55 passos para percorrer 1mt em 01 segundo, que é 180 vezes o seu tamanho, e dez vezes mais rápidas que o velocista jamaicano Usain Bolt.
O homem dará apenas 01 passo para percorrer a mesma distância no mesmo tempo aproximado, a uma velocidade proporcional 10 vezes menor que a formiga.
EFEITOS – Visão diferente do espaço, e o que é Multe Universo Espacial.
Para o homem a sua visão de espaço de 1 metro está na escala de 1 para 1, para a formiga a visão do mesmo espaço está na escala de 1 para 180.
Aqui também está a resposta para os MULTE UNIVERSOS ESPACIAIS, o Universo espacial que o homem vive e diferente no Universo espacial que a formiga vive, vivendo cada um em um Universo espacial de escalas diferentes proporcional a sua massa e deslocamento. Homem mais massa, logo mais lento para percorrer uma distância, formiga menos massa, logo mais veloz para percorrer a mesma distância.

TEMPO
A formiga vive 01 ano, e o homem 70 anos, em média ambos, e ambos precisam de aproximadamente o mesmo tempo para percorrer 1mt.
Porem na escala de tempo da existência/tempo, 1mt de tempo percorrido pela formiga (na relação de seu tempo de vida seriam 70 segundos nossos), e 70 vezes mais longo que 01 homem, que precisa de 1 segundo de sua vida para percorrer a mesma distância, apesar que se observarmos os 2 ao mesmo tempo, iremos ver que na escala universal do tempo eles levaram o mesmo tempo.
EFEITOS – Percepção diferenciada na escala de tempo, e a existência de Multe Universos Temporais.
Para o homem a sensação de tempo de 1 metro está na escala de 1 para 1 segundo, para a formiga a sensação de tempo está na escala de 1 para 70 segundos nosso.
Aqui também está a resposta para os MULTE UNIVERSOS TEMPORAIS, o Universo temporal que o homem vive e diferente no Universo temporal que a formiga vive, vivendo cada um em um Universo temporal de escalas diferentes proporcional a sua massa e velocidade.

CONCLUSÃO
A natureza sempre tenta manter tudo em equilíbrio e assim manter os Universos Entrelaçados.
O homem vive 70 vezes mais no TEMPO que a formiga.
Porem a formiga anda 10 vezes mais rápido no ESPAÇO para compensar esta diferença.
Ou seja, quando o tempo e espaço se curvam entre si, eles mantem o equilíbrio entre os Universos paralelos.
Aqui também está a resposta para os MULTE UNIVERSOS, o Universo espaço/tempo que o homem vive e diferente no Universo espaço/tempo que a formiga vive, e o que determina esta existência de Universos tempo/espaço diferente e ao mesmo tempo o equilíbrio entre eles, são as proporcionalidades massa/velocidade.
TE = mv.

Voltemos ao buraco negro.

A PROPORCIONALIDADE.
Quem estiver de fora, ira ver um ponto ínfimo dentro de um abismo gigantesco, digamos que um ponto de 0,018 km de altura que seria do homem em queda, e de 150.000 km de profundida (número hipotético) o buraco negro no qual ele está caindo.
Esta relação de tamanhos desproporcional, cria uma ilusão de ótica dos fatos.

A VISÃO DA PESSOA CAINDO.
Se a pessoa estiver caindo a 100 km por hora, a pessoa sentiria que está em grande velocidade ao ver as paredes do buraco negro passarem ao seu lado de forma tão rápidas, isto se deve a sua proximidade das paredes do buraco negro.

A VISÃO DE QUEM ESTA DE FORA OBSERVANDO A QUEDA.
Quem estiver de fora olhando o conjunto todo pessoa caindo e buraco negro, ira ver um ponto se deslocando lentamente em relação ao tamanho do buraco. Pois ele vai precisar de 150 horas para percorrer todo o trajeto, criando a ilusão ótica de que ele está lento. Porem quanto mais você se aproximar dele e as paredes do buraco negro forem diminuindo dentro do seu campo de visão, mais a velocidade dele irá aumentar.

02 EXPERIMENTOS QUE COMPROVAM ISTO.
1- Primeiro experimento.
Quem estiver dentro de um kart correndo a 10cm do chão, terá a sensação que estará em uma velocidade muito superior a pista, do quem estiver olhando de fora o conjunto pessoa/kart em relação a mesma pista sobre a qual estão correndo, que terá a sensação que eles estão lentos.
2- Segundo experimento.
A nossa experiência diária de movimento das velocidades que o nosso planeta Terra gira.
Sobre seu próprio eixo (rotação) 1 700 km/h.
Ao redor do Sol (translação) 107 000 km/h.
Em relação ao centro da galáxia 1.000.000 km/h.

EFEITO – A proporcionalidade de massa/distancia pode aumentar ou diminuir a nossa percepção de velocidade.
Então agora responda, você consegue sentir ou observar estas velocidades tão altas tanto aqui na Terra ou olhando para o espaço e observando os movimentos dos astros?
Se perceber será algo igual a pessoa que estava fora do buraco negro, vai ver tudo muito lento.
Velocidade perceptiva está relacionada a relação entre massa e distância.
VP=md

“Não atribua a natureza mais fenômenos do que ela possa de uma forma simples produzir.”


Fonte: https://universoracionalista.org/o-que-e-espaco-tempo/

Gravidade - Alessandro Brito

Há um breve espaço-tempo
Um denso oscilar de pensamentos
Que une e movimenta os sentidos
Envoltos em suas magnitudes
Ainda que compostos por partes diversas
Se unem no firmamento
Percepções distintas de universos paralelos
Que a natureza tentar manter em equilíbrio
Sem maiores gravidade.




domingo, 1 de janeiro de 2023

Transformações - Alessandro Brito

E, apesar dos pesares, percebo que o amor ainda é o norte da minha vida.

Em algum momento, percebi que amor não se acaba. Aliás, entendi que os sentimentos não se acabam apenas se transformam.

Assim como perder a vida pode levar uma fração de segundos é também em um fração de segundos que tudo que é vivo  pode se transformar. Principalmente os sentimentos. 

Uma decisão, uma atitude, uma frase ou até mesmo o silêncio, pode ser o suficiente para mudar o rumo de nossas vidas, transformar todo um cenário. E não aponto dessa forma por mera especulação ou achismo, como de costume, faço com base nas minhas vivências. 

Alguns tiros ceifaram a vida da pessoa que mais amo, foram segundos. Meu pai, que até meus 17 anos foi meu herói, em determinada situação de nossas vidas calou- se, foram segundos de silêncio que sepultaram tudo o que poderíamos ter vivido nas décadas seguintes, até sua morte. Uma passagem comprada em segundos, mudou todo o rumo da minha vida. A decisão de fazer uma cirurgia plástica fez tudo desmoronar. Uma súbita paixão poderia acontecer em segundos e novamente mudar todo o cenário, um frase mal colocado poderia ter sido suficiente para o rompimento de uma nova gestação. Enfim, assim tem sido, transformações.

Então, percebi que essas passagens impactantes estão sempre ligadas ao amor e na sua transformação, por meio de como se reage a cada evento. 

Hoje entendo que os sentimentos não morrem, apenas se transformam. O que era amor pode transformar-se em decepção, em segundos. Os planos e promessas podem ser alterados em segundos e se transformarem em ilusão. Basta um desencontro entre o tic e o tac para resultar no sepultamento ou nascimento, na transformação da morte em vida ou vice versa.

Não há como controlar tais eventos, nessas situações, nos resta apenas reagir aos sentimentos e direcioná-los.

As festas de fim de ano sempre foram eventos que me feriram, sou agraciado com uma família nada ortodoxa. E aquela tristeza incontida, que sempre me acompanhou transformou-se em aceitação da minha realidade. Acredito que os festejos vindouros, caso eu tenha essa oportunidade, serão mais amenos. 

A dor de ser só (sem a família tradicional), talvez tenha se transformado na velha esperança (aquela que o velho Nietzsche diz ser o pior dos males, pois prolonga o sofrimento) de formar minha família. A querido Nietzsche você que tanto me ensina, nessa não vai ter jeito, sonhar ainda é minha maior habilidade e sonhos, são pura esperanças.

O amor ainda pulsa e fala alto dentro do meu peito, embora eu ainda pastore o "pássaro azul", a gaiola está aberta.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Súplica - Marcos Sacramento


Aço frio de um punhal
Foi teu adeus para mim
Não crendo na verdade
Implorei, pedi
As súplicas morreram
Sem eco, em vão
Batendo nas paredes frias do apartamento
Torpor tomou-me todo
E eu fiquei sem ser mais nada
Adormecido tenha
Talvez, quem sabe
Pela janela, aberta, a fria madrugada
Amortalhou-me a dor
Com o manto da garoa
Esperança morreste muito cedo
Saudade cedo demais chegaste
Uma quando parte
A outra sempre chega
Chorar se lágrimas não tenho
Coração, porque é que tu não paras
A taça do meu sofrer findaste
É inútil prosseguir
Se forças já não tenho
Tu sabes bem que ela era minha vida
Meu doce e grande amor.


sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Mestre, meu mestre querido - Álvaro Campos

 

Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada.
Alma abstracta e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva...

Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém
Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Porque é que me chamaste para o alto dos montes

Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
Porque é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Porque é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!

Feliz o homem marçano,
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada.
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio.
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.


15-4-1928
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 31.


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Poesia Matemática - Millôr Fernandes

Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos romboides, boca trapezoide,
Corpo ortogonal, seios esferoides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela
Até que se encontraram
No Infinito.
“Quem és tu?” indagou ele
Com ânsia radical.
“Eu sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que era
— O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs —
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da Quarta Dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar
Mais que um lar,
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Frequentador de Círculos Concêntricos
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta.
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.

03.10.1950

Frase - Karl Popper

Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos.




Marcadores