quinta-feira, 23 de maio de 2019

Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.



Resposta ao "Santana" (cantador só de xote) - Brás Costa, Górdoba, outubro de 2011.

O Poeta Antônio Pereira uma dia aconselhou:

Quem quiser plantar saudade,
Escalde bem a semente
E plante na terra seca
Em dia de sol bem quente,
Pois se plantar no molhado,
Ela nasce e mata a gente..

Vivendo lá longe nas europas, com um cadinho de saudade do seu sertão que quer tanto bem, o Padroeta Brás Costa, respondeu do jeito que se dá:

Ao poeta Antonio Pereira

Caro poeta, confesso, não segui corretamente
O seu poético conselho e não plantei a semente
Ao invés de escaldá-la
Eu preferi não plantá-la
Pensando que a evitasse
Mas para surpresa minha
Na cova do amor qu'eu tinha
Um pé de saudade nasce...

É, meu poeta, a saudade nasce sem ninguém plantar
E quanto a sua semente, é mesmo inútil escaldar
Mesmo que escalde a semente
Que a plante em terreno quente
E que não chova um sereno
Como pé de carrapicho
Ela faz esse capricho
Nasce e alastra o terreno.

Mas, obrigado poeta, pelo conselho no verso
Não se ofenda se eu sigo um caminho diverso
Vou plantá-la num baixo
Perto das margens dum rio
Onde a terra é irrigada
Já que eu não posso com ela
Vou assim vivendo dela
Pra morrer dessa danada.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Minha Mangueira - Alessandro Brito

A vida do pobre
Na favela melhorou
O barracão de zinco
Se modernizou
Descendo ou subindo, cantando ou chorando
Chegando ou partindo o morro vai me acompanhando
As tristezas que tenho na vida
Ficam para fora do meu barracão
Lá é meu reino de fantasia
Tenho amor e alegria quando chora o violão
Se a noite é estrelada
Tiro a minha amada, e colo pra sambar
Se for noite de tempestade
A Deus peço piedade, e proteção pro meu lar
Vejo correr os pequeninos
Que hoje são meninos
Mas terão que se casar
Peço que não se esqueça da favela
Da vida feliz que só ela, pode nos proporcionar
Ai lua! Você que é testemunha de todo pranto que chorei
Foi você quem presenciou
E meu sofrer amenizou
Quando o pinho eu empunhei
E entre becos e vielas aprendi que todas elas
Trazem amor e muita paz
E será sempre na primeira
Na minha querida mangueira
Que eu quero que meu corpo jaz.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Frase - Alessandro Brito

A saudade é algo difícil de absorver, ela representa momentos sublimes que não poderão se repetir, mas quando pensamos em todas as saudades que ainda poderemos sentir, vale a pena seguir em frente.

A rua das rimas - Guilherme de Almeida

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço laço e basso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que me mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte indiferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranqüilidade: RUA DA FELICIDADE...

terça-feira, 7 de maio de 2019

Os 3 tipos de mulheres - Alessandro Brito

Mulher 1 - Saiu com a mina, rola à química monstra... Estamos morrendo de tesão, o ambiente é favorável para a intimidade de um casal... O metabolismo acelera cada vez mais, vou tocá-la! Ela não deixa. Os beijos continuam cada vez mais envolventes, arrisco novamente uma carícia mais atrevida, vem a negativa! Já entendi que não vai rolar, ficar tentando será desgastante!!!
Conclusão: Sei que se sair com ela mais 5 vezes no máximo, ela vai transar comigo!
E não foi por falta de eu transmitir segurança não, ela quis apenas valorizar, está jogando comigo, mas minha postura desde o início não é foi de jogo, logo, não é uma moça que eu transarei mais de uma vez. (Ela se colocou em uma situação premeditando suas atitudes, se não estava afim que rolasse fosse "sincera" (coisas que vocês adoram dizer que nós não somos) e não desse margem para chegar aquela situação).

Mulher 2 - Saimos, rolou aquela química monstraaa... Estamos morrendo de tesão, tento persuadi-la, embora o metabolismo esteja a mil, ela não me deixa tocá-la, muito menos aceita ir para um outro lugar... Essa tem todo meu respeito, todo mesmo! Devo entender que o incompetente fui eu, que não conseguir fazer a triagem de entender sua carência, ou necessidade, falhei em não dar a ela a segurança que ela precisava naquele momento! Talvez eu saia com ela inúmeras vezes e não venha ter uma relação íntima, embora role a química, talvez eu peque em não conseguir entender o que ela realmente necessitava para se sentir segura.

Mulher 3 - Essas sim são raras, logo, as mais interessantes... Saimos, a química monstraaaa rolou novamente! Mas dessa vez é diferente, ambos estão a flor da pele, ela me deseja com a mesma intensidade que eu a desejo. Nos tocamos, decidimos nos gestos que teremos uma relação íntima... Aí onde mora o perigo! Sem dizer nada, ela me impõe a seguinte condição: "Eu sei o que estou fazendo, e você?" Cabe a mim, saber se tenho pique pra encarar ou não! Não digo pelo ato sexual, mas pelo pós.
Sem dizer uma única palavra ela no grau de sua maturidade (independente da idade) deixou bem claro uma coisa, "ela transará comigo quando ela bem entender, eu não transarei com ela quando eu bem entender", xeque -mate!

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Poema - Hilda Hilst

Empoçada de instantes, cresce a noite
Descosendo as falas. Um poema entre-muros
Quer nascer, de carne jubilosa
E longo corpo escuro. Pergunto-me
Se a perfeição não seria o não dizer
E deixar aquietadas as palavras
Nos noturnos desvãos. Um poema pulsante
Ainda que imperfeito quer nascer.
Estando sobre a mesa o grande corpo
Envolto na sua bruma. Expiro amor e ar
Sobre as suas ventas. Nasce intensa
E luzente a minha cria

No azulecer da tinta e à luz do dia.


Sonetos que não são – I (Roteiro do Silêncio, 1959) - Hilda Hilst


Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

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