terça-feira, 30 de outubro de 2012

Um desafio à escuridão - Charles Bukowski


atire no no olho
atire no cérebro
atire no cu
atire como uma flor numa dança

fantástico como a morte ganha tão facilmente
fantástico como muito crédito é dado para formas de vida idiotas

fantástico como a risada tem sido silenciada.
fantástico como a crueldade tem sido constantemente propagada.
preciso logo declarar minha guerra à guerra deles
preciso segurar meu pedaço de chão
preciso proteger o pequeno lugar onde fiz que minha vida foça permitida

minha vida não à morte deles
minha morte não à morte deles…

'O Gênio das Multidões' - Charles Bukowski

Frase - Alessandro Brito

Eu respeito que a maioria dos que convivo não entendam "como eu vivo", mas acreditem é apenas uma questão de estilo!
Me compreender é o fundamental, ser compreendido...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Luiz Gonzaga Raridade - ' Proposta ' Pt. 2 ( 1972 ) Partic. Gonzaguinha...

No dia em que eu vim-me embora Luiz Gonzaga

Ranchinho de paia - Luiz Gonzaga

Ranchinho de Paia 
Que abriga você 
Na espalha do coqueiro 
E só uma roseira. 

Ranchinho de Paia 
Onde tudo é amor, 
Há beleza na praia 
E um canto do pescador. 

Ranchinho de Paia 
Onde o chão é de areia 
Onde nós dois agazáia 
Essa casinha tão feia. 

Mas pouca gente 
É feliz como nós 
Um canta pro outro 
E pro vento escutando a voz. 

Frase - John Ruskin

"A maior recompensa do nosso trabalho não é o que nos pagam por ele,
mas aquilo em que ele nos transforma."

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Adorável Canalha - Carpinejar

É um defeito, mas nada mais delicioso do que ouvir de uma mulher: "CANALHA!"

Ser chamado de "canalha" por uma voz feminina é o domingo da língua portuguesa. O som reboa redondo. Os lábios da palavra são carnudos. Vontade de morder com os ouvidos. Aproximar-se da porta e apanhar a respiração do quarto pela fechadura.

Canalha, definitivo como um estampido, como um tapa.

Não ser chamado de canalha pela maldade, mas por mérito da malícia, como virtude da insinuação, pelo atrevimento sugestivo.

Não o canalha canalha, mas o ca-na-lha, sem repetição. Único.

Não o canalha que deixa a mulher; o canalha que permanece junto. O canalha adorável que ultrapassou o sinal vermelho para levá-la. O canalha que é rude, nunca por falta de educação, para acentuar a violência do amor. Canalha por opção, não devido a uma infelicidade e limitação intelectual. Canalha em nome da inteligência do corpo.

O canalha. Como um elogio. Um elogio para dizer que é impossível domesticar esse homem, é impossível conter, é impossível fugir dele. Canalha como pós-graduação do "sem-vergonha".

Bem diferente de crápula, que não é sensual e define o mau-caratismo indelével, ou de cafajeste, alguém que não presta nem para ser canalha, de índole egoísta e aproveitadora.

Eu me arrepio ao escutar canalha. Um canalha que significa o contrário do dicionário. Nem perca tempo consultando o Aurélio e o Houaiss, que não incluem o sentimento da pronúncia. Estou falando do canalha que suscita aproximação, abraço, desejo. Um canalha que é um pedido de casamento entre as vogais.

É pelas expressões que se define a segurança masculina. Sempre duvidei de homem que diz que vai fazer xixi. Xixi é coisa de criança. Eu não represo a gargalhada quando um amigo adulto e de vida feita comenta que vai fazer xixi. Imagino o cara sentado. Infantil como Ivo viu a uva. Já urinar é muito laboratorial. Prefiro mijar, direto, rápido e verdadeiro. As árvores mijam. Os relâmpagos mijam. Os cachorros mijam para demarcar seu território. Aliás, o correto é não anunciar, ir ao banheiro apenas, para evitar constrangimentos vocabulares.

Canalha funciona como uma agressão íntima. Uma agressão afetuosa. Uma provocação. Não se está concluindo, é uma pergunta. Canalha é uma interrogação gostosa.

Não ficarei triste se você esquecer meu nome, chame-me de canalha.

**
Crônica extraída do livro "Canalha!" de Fabrício Carpinejar - Editora Bertrand Brasil.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Para Al... - Charles Bukowski

não se preocupe com rejeições, parceiro,
eu já fui rejeitado
antes.

algumas vezes você comete um erro, pegando
o poema errado
o mais comum para mim é cometer o erro de
escrevê-lo.

mas eu gosto de uma montaria em cada corrida
mesmo que o homem
que organiza a largada da manhã

a coloque pagando 30 por um.

tenho que pensar na morte mais e mais

senilidade

muletas

poltronas

escrevendo poesia púrpura com a
caneta pingando

quando mocinhas com bocas
de piranha
corpos como limoeiros
corpos como nuvens
corpos como flashes de luz
pararem de bater à minha porta.

não se preocupe com rejeições, parceiro.

fumei 25 cigarros esta noite
e você sabe sobre a cerveja.

o telefone tocou apenas uma vez:
era engano.

Alma - Charles Bukowski

oh, como eles se preocupam com minha
alma!
recebo cartas
o telefone toca...
"você vai ficar bem?"
perguntam.
"ficarei bem", eu lhes digo.
"já vi tantos se afundarem na sarjeta",
eles me dizem.
"não se preocupem comigo", digo.

ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.

o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.

se você vive dentro de um ármario na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.

ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.

ou se você está bêbado e não pára de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.

mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar um puta
e você vendeu sua
alma.

não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.

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