É um defeito, mas nada mais delicioso do que ouvir de uma mulher: "CANALHA!"
Ser
chamado de "canalha" por uma voz feminina é o domingo da língua
portuguesa. O som reboa redondo. Os lábios da palavra são carnudos.
Vontade de morder com os ouvidos. Aproximar-se da porta e apanhar a
respiração do quarto pela fechadura.
Canalha, definitivo como um estampido, como um tapa.
Não ser chamado de canalha pela maldade, mas por mérito da malícia, como virtude da insinuação, pelo atrevimento sugestivo.
Não o canalha canalha, mas o ca-na-lha, sem repetição. Único.
Não
o canalha que deixa a mulher; o canalha que permanece junto. O canalha
adorável que ultrapassou o sinal vermelho para levá-la. O canalha que é
rude, nunca por falta de educação, para acentuar a violência do amor.
Canalha por opção, não devido a uma infelicidade e limitação
intelectual. Canalha em nome da inteligência do corpo.
O canalha.
Como um elogio. Um elogio para dizer que é impossível domesticar esse
homem, é impossível conter, é impossível fugir dele. Canalha como
pós-graduação do "sem-vergonha".
Bem diferente de crápula, que
não é sensual e define o mau-caratismo indelével, ou de cafajeste,
alguém que não presta nem para ser canalha, de índole egoísta e
aproveitadora.
Eu me arrepio ao escutar canalha. Um canalha que significa o contrário do dicionário. Nem perca tempo consultando o Aurélio e o Houaiss,
que não incluem o sentimento da pronúncia. Estou falando do canalha que
suscita aproximação, abraço, desejo. Um canalha que é um pedido de
casamento entre as vogais.
É pelas expressões que se define a
segurança masculina. Sempre duvidei de homem que diz que vai fazer xixi.
Xixi é coisa de criança. Eu não represo a gargalhada quando um amigo
adulto e de vida feita comenta que vai fazer xixi. Imagino o cara
sentado. Infantil como Ivo viu a uva. Já urinar é muito laboratorial.
Prefiro mijar, direto, rápido e verdadeiro. As árvores mijam. Os
relâmpagos mijam. Os cachorros mijam para demarcar seu território.
Aliás, o correto é não anunciar, ir ao banheiro apenas, para evitar
constrangimentos vocabulares.
Canalha funciona como uma agressão
íntima. Uma agressão afetuosa. Uma provocação. Não se está concluindo, é
uma pergunta. Canalha é uma interrogação gostosa.
Não ficarei triste se você esquecer meu nome, chame-me de canalha.
**
Crônica extraída do livro "Canalha!" de Fabrício Carpinejar - Editora Bertrand Brasil.
Minha lira tem um jeito de quem está perdido em um caminho sem volta, não há paredes, não há estradas, não há luz nem referentes, há apenas passos desvairados que me conduzem querendo voltar...
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Para Al... - Charles Bukowski
não se preocupe com rejeições, parceiro,
eu já fui rejeitado
antes.
algumas vezes você comete um erro, pegando
o poema errado
o mais comum para mim é cometer o erro de
escrevê-lo.
mas eu gosto de uma montaria em cada corrida
mesmo que o homem
que organiza a largada da manhã
a coloque pagando 30 por um.
tenho que pensar na morte mais e mais
senilidade
muletas
poltronas
escrevendo poesia púrpura com a
caneta pingando
quando mocinhas com bocas
de piranha
corpos como limoeiros
corpos como nuvens
corpos como flashes de luz
pararem de bater à minha porta.
não se preocupe com rejeições, parceiro.
fumei 25 cigarros esta noite
e você sabe sobre a cerveja.
o telefone tocou apenas uma vez:
era engano.
eu já fui rejeitado
antes.
algumas vezes você comete um erro, pegando
o poema errado
o mais comum para mim é cometer o erro de
escrevê-lo.
mas eu gosto de uma montaria em cada corrida
mesmo que o homem
que organiza a largada da manhã
a coloque pagando 30 por um.
tenho que pensar na morte mais e mais
senilidade
muletas
poltronas
escrevendo poesia púrpura com a
caneta pingando
quando mocinhas com bocas
de piranha
corpos como limoeiros
corpos como nuvens
corpos como flashes de luz
pararem de bater à minha porta.
não se preocupe com rejeições, parceiro.
fumei 25 cigarros esta noite
e você sabe sobre a cerveja.
o telefone tocou apenas uma vez:
era engano.
Alma - Charles Bukowski
oh, como eles se preocupam com minha
alma!
recebo cartas
o telefone toca...
"você vai ficar bem?"
perguntam.
"ficarei bem", eu lhes digo.
"já vi tantos se afundarem na sarjeta",
eles me dizem.
"não se preocupem comigo", digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um ármario na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não pára de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar um puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
alma!
recebo cartas
o telefone toca...
"você vai ficar bem?"
perguntam.
"ficarei bem", eu lhes digo.
"já vi tantos se afundarem na sarjeta",
eles me dizem.
"não se preocupem comigo", digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um ármario na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não pára de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar um puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
AUDÁCIA - ALVAIADE E CASQUINHA
Eu tive audácia em falar de amor
Mas eu precisava amenizar a minha dor
Sei a diferença que existe entre nós
Mas quis falar porque o amor não tem voz
Diga que me ama
Embora eu seja enganado
São palavras de conforto
A um desesperado
Desde o dia em qeu te vi
Senti um grande afeto por ti
Sem poder amenizar a minha dor
Culpada foi a própria natureza
Que te deu tanta beleza
Tanta graça e explendor
Sei a diferença que existe entre nós
Mas quis falar porque o amor não tem voz
Diga que me ama
Embora eu seja enganado
São palavras de conforto
A um desesperado
Desde o dia em qeu te vi
Senti um grande afeto por ti
Sem poder amenizar a minha dor
Culpada foi a própria natureza
Que te deu tanta beleza
Tanta graça e explendor
Amigo é Casa - Zélia Duncan e Simone
Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência pra durar pra sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra
preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
há que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger
E há que fincar muito jequitibá
e vigas de jatobá
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar
que os cabelos brancos vão surgindo
Que nem mato na roceira
que mal dá pra capinar
e há que ver os pés de manacá
cheínhos de sabiás
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis
choro de imaginar!
pra festa da cumieira não faltem os violões!
muito milho ardendo na fogueira
e quentão farto em gengibre
aquecendo os corações
A casa é amizade construída aos poucos
e que a gente quer com beira e tribeira
Com gelosia feita de matéria rara
e altas platibandas, com portão bem largo
que é pra se entrar sorrindo
nas horas incertas
sem fazer alarde, sem causar transtorno
Amigo que é amigo quando quer estar presente
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar,
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
e oferece lugar pra dormir e comer
Amigo que é amigo não puxa tapete
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem
quando não tem, finge que tem,
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.
e com paciência pra durar pra sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra
preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
há que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger
E há que fincar muito jequitibá
e vigas de jatobá
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar
que os cabelos brancos vão surgindo
Que nem mato na roceira
que mal dá pra capinar
e há que ver os pés de manacá
cheínhos de sabiás
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis
choro de imaginar!
pra festa da cumieira não faltem os violões!
muito milho ardendo na fogueira
e quentão farto em gengibre
aquecendo os corações
A casa é amizade construída aos poucos
e que a gente quer com beira e tribeira
Com gelosia feita de matéria rara
e altas platibandas, com portão bem largo
que é pra se entrar sorrindo
nas horas incertas
sem fazer alarde, sem causar transtorno
Amigo que é amigo quando quer estar presente
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar,
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
e oferece lugar pra dormir e comer
Amigo que é amigo não puxa tapete
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem
quando não tem, finge que tem,
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
domingo, 14 de outubro de 2012
Vocês - Alessandro Brito
De mim, apenas eu
Existe, pouco, muito pouco
De certo, quase nada
Sou em minha maioria, vocês...
Que me respeitam, me amam
Que me ouvem, me leem...
Me permitem apenas ser
Sem ao menos me entenderem, me permitem ser
Confuso, ansioso, verborrágico
Amigo, irmão, me permitem ser vocês...
Sou a minha história
Contada em versos
Dos reversos do meu caminho
Cada qual em mim tem uma frase
Deixaram- me ensinamentos
Sou então de vocês um texto
Revendo meus anais
hoje tenho apenas duas certezas:
-Que um dia partirei
-E que nunca estive sozinho
Existe, pouco, muito pouco
De certo, quase nada
Sou em minha maioria, vocês...
Que me respeitam, me amam
Que me ouvem, me leem...
Me permitem apenas ser
Sem ao menos me entenderem, me permitem ser
Confuso, ansioso, verborrágico
Amigo, irmão, me permitem ser vocês...
Sou a minha história
Contada em versos
Dos reversos do meu caminho
Cada qual em mim tem uma frase
Deixaram- me ensinamentos
Sou então de vocês um texto
Revendo meus anais
hoje tenho apenas duas certezas:
-Que um dia partirei
-E que nunca estive sozinho
Gracias a La Vida - Mercedes Sosa
Infinitamente lindo...
"...Graças à vida que me deu tanto
Me deu a marcha de meus pés cansados
Com eles andei cidades e charcos
Praias e desertos, montanhas e planícies
E a casa sua, sua rua e seu pátio
Graças à vida que me deu tanto
Me deu o coração que agita seu marco
Quando olho o fruto do cérebro humano
Quando olho o bom tão longe do mal
Quando olho o fundo de seus olhos claros..."
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