terça-feira, 18 de setembro de 2012

Pombo correio - Gilberto Alves (1960)


E até o Sol, por pirraça,
Invadiu a vidraçaE o retrato dela desbotou.


VENHA, POR FAVOR - Fabrício Carpinejar

VENHA, POR FAVOR

Eu espero alguém que não desista de mim mesmo quando já não tem interesse. Espero alguém que não me torture com promessas de envelhecer comigo, que realmente envelheça comigo. Espero alguém que se orgulhe do que escrevo, que me faça ser mais amigo dos meus amigos e mais irmão dos meus irmãos. Espero alguém que não tenha medo do escândalo, mas tenha medo da

indiferença.

Espero alguém que ponha bilhetinhos dentro daqueles livros que vou ler até o fim. Espero alguém que se arrependa rápido de suas grosserias e me perdoe sem querer. Espero alguém que me avise que estou repetindo a roupa na semana. Espero alguém que nunca desista de conversar mesmo quando não sei mais falar. Espero alguém que, nos jantares entre os amigos, dispute comigo para contar primeiro como nos conhecemos.

Espero alguém que goste de dirigir para nos revezarmos em longas viagens. Espero alguém que confie se a porta está fechada e o café desligado, se meu rosto está aborrecido ou esperançoso. Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros. Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade. Espero alguém que possa criar toda uma linguagem cifrada para que ninguém nos recrimine. Espero alguém que arrume ingressos de teatro de repente, que me sequestre ao cinema, que cheire meu corpo suado como se ainda fosse perfume.

Espero alguém que não largue as mãos dadas nem para coçar o rosto. Espero alguém que me olhe demoradamente quando estou distraído, que goste de me telefonar para narrar como foi seu dia. Espero alguém que procure um espaço acolchoado em meu peito quando cansada. Espero alguém que minta que cozinha e só diga a verdade depois que comi. Espero alguém que leia uma notícia, veja que haverá um show de minha banda predileta, e corra para me adiantar por e-mail. Espero alguém que ame meus filhos como se estivesse reencontrando minha infância e adolescência fora de mim.

Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar. Espero alguém com uma vocação pela metade, uma frustração antiga, um desejo de ser algo que não se cumpriu, uma melancolia discreta, para nunca ser prepotente. Espero alguém que tenha uma risada tão bonita que terei sempre vontade de ser engraçado.

Espero alguém que comente sua dor com respeito e ouça minha dor com interesse. Espero alguém que prepare minha festa de aniversário em segredo e crie conspiração dos amigos para me ajudar. Espero alguém que pinte o muro onde passo, que não se perturbe com o que as pessoas pensam a nosso respeito. Espero alguém que vire cínico no desespero e doce na tristeza. Espero alguém que goste de domingo em casa, de acordar tarde e de andar de chinelos, e que me pergunte o tempo antes de olhar para as janelas.

Espero alguém que me ensine a me amar porque a separação apenas vem me ensinando a me destruir. Espero alguém que tenha pressa de mim, eternidade de mim, que chegue logo, que apareça hoje, que largue o casaco no sofá e não seja educada a ponto de estendê-lo no cabide. Espero encontrar uma mulher que me torne novamente necessário.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 18/09/2012
Porto Alegre (RS), Edição N° 17196

Sophia de Mello Breyner Andresen - in "O Nome das Coisas"

A Forma Justa Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo


Frase - Alessandro Brito

"O pouco que sei, é nada, perante o que quero saber".

Frase - Quando Nietzsche Chorou - p. 192.

Aportando em estado profundo de indigestão indeterminada!!!!!!

"O desespero é o preço pago pela autoconsciência. Olhe profundamente para dentro de si e sempre encontrará o desespero" 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Zé do Norte: Lua Bonita (gravação original)


A nova geração conhece Lua Bonita pela bela regravação feita pelo maluco beleza Raul Seixas. No entanto, a música foi originalmente gravada em 1953 por Zé do Norte, autor da canção em parceria com Zé Martins, para a trilha sonora do clássico de Lima Barreto, "O Cangaceiro", que foi considerado o melhor filme de aventura do Festival de Cannes daquele ano. Nesse mesmo filme, Zé do Norte também lançou Mulher rendeira, outro clássico da MPB. Aliás, mesmo no Nordeste, esta música é tão enraizada no imaginário coletivo, que a maioria das pessoas a vêem como herança folclórica, de domínio público e autor desconhecido. A trilha do filme, que tem parte das músicas de outros autores, em muito contribuiu para tornar a música de Zé conhecida em todo mundo - Europa, EUA, União Soviética - já que, na época, a fita foi vista em 80 países e por quase 50 milhões de pessoas!

Texto de Enoque Feitosa informa que Alfredo Ricardo do Nascimento, ou melhor, Zé do Norte, nasceu em Cajazeiras em 18 de dezembro de 1908 e migrou para o Rio de Janeiro em 1926, ao completar 18 anos. Se vivo estivesse estaria completando, em 2009, 101 anos de uma vida marcada por intensa ligação com seu povo e sua cultura e por belíssimas músicas que fazem parte do cancioneiro nacional.

No Rio, na esteira da afirmação da música nordestina, através de Luiz Gonzaga, em programas da Rádio Nacional, criada após a Revolução de 30 por Getúlio Vargas, para estimular a difusão de uma Cultura Nacional-popular, Zé do Norte, foi descoberto pelo homem de teatro Joraci Camargo, autor de "Deus lhe Pague" e "Sindicato dos mendigos". Ao lado de outros que na mesma época eram atraídos pelo Rio, como João Pernambuco, Jaime Florence, (o Meira, que com o Dino 7 Cordas formou uma das mais duradouras duplas do violão brasileiro), Luperce Miranda, Jackson do Pandeiro, entre outros, Zé do Norte viu surgir a grande oportunidade de afirmação de seu talento, tendo nesse período de 1928 e até o final da década de 50 tido intensa participação na difusão da cultura e do cantar nordestino, na antiga capital federal.

Zé do Norte saiu de Cajazeiras praticamente analfabeto. Lá, foi funcionário da limpeza de um colégio particular e mesmo propondo trabalhar de graça para poder estudar, não foi aceito por que, conforme lembra nas suas memórias, o então diretor o informou que "aquele era um colégio exclusivo para pessoas de família". Mesmo assim, sem chances de obter educação formal, Zé não abriu mão de adquirir sólida formação humanista, que foi decisivo para vinculá-lo as suas raízes e produzir uma música bela e evocativa dos sentimentos de sua gente. Zé produziu cerca de 200 obras musicais, boa parte carecendo de um trabalho de catalogação. Sua obra é cantada hoje no Brasil e no exterior, embora nem sempre a fonte seja citada.

No período mais fértil da carreira de Joan Baez, ali nos anos 60, vários artistas, como Bob Dylan e a própria Baez foram buscar no folclore americano e na música da América Latina fonte de inspiração. E é num de seus primeiros discos, o "Joan Baez 5", que encontramos a "Mulher Rendeira", com o título de "O Cangaceiro" e com o Zé do Norte com seu nome de batismo completo, Alfredo Ricardo do Nascimento. Nesse mesmo disco, Baez gravou a "Quinta Bachiana", de Villa-Lobos.

Na MPB uma outra canção sua muito conhecida é "Sodade, meu bem, sodade", toada gravada pela primeira vez por Vanja Orico, em 53. É dele também "Meu Pião", que gravou em 71 e que tornou-se conhecida na voz de Geraldo Azevedo. Suas músicas, além de evocativa das coisas sertanejas, têm muito lirismo, como se vê em "Sapato de algodão ("eu fui dançar/ com meu sapato de algodão/ o sapato pegou fogo/ eu fiquei de pé no chão"),

Zé do Norte só voltou a Paraíba quase 60 anos depois, em 1985, para ser homenageado em um festival cultural. O conjunto de sua contribuição à MPB e as Culturas Nacional e Regional é imensa e ainda pouco conhecida, sendo utilizada, como é o caso de "O lobisomem de Cajazeiras", em textos teatrais e novelas de TV, em nome de outros autores. Ele foi um representante típico daqueles artistas enquadrados na definição de Tolstoi: "Sou universal ao falar de minha aldeia. Descreva sua terra e assim estarás descrevendo o mundo todo". Zé morreu em 4 de janeiro de 1992 no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Se eu te dissesse - Castro Alves

Se eu te dissesse que cindindo os mares,
Triste, pendido sobre a vítrea vaga,
Eu desfolhava de teu nome as pétalas
Ao salso vento, que as marés afaga...

Se eu te dissesse que por ermos cimos,
Por ínvios trilhos de uni país distante,
Teu casto riso, teu olhar celeste
Ungia o lábio ao viajor errante;

Se eu te dissesse que do alvergue à ermida,
Do monte ao vale, da chapada à selva,
Junta comigo vagueou tua alma;
Junta comigo pernoitou na relva;

Se eu te dissesse que ao relento frio
Dei minha fronte à viração gemente,
E olhando o rumo de teu lar — saudoso,
Molhei as trevas de meu pranto algente;

Se eu te dissesse, bela flor das saias!
Que eu dei teu nome dos sertões às flores!...
E ousei, na trova em que os pastores gemem,
Por ti, senhora, improvisar de amores;

Se eu te dissesse que tu foste a concha
Que o peregrino traz da Terra Santa,
Mago amuleto que no seio mora,
Doce relíquia... talismã que encanta!... ;

Se eu te dissesse que tu foste a rosa
Que ornava a gorra ao menestrel divino;
Cruz que o Templário conchegava ao peito
Quando nas naves reboava o hino;

Se eu te dissse que tu és, criança!
O anjo-da-guarda que me orvalha as preces...;
Se eu te disserte... — Foi talvez mentira! —
Se eu te dissesse... Tu talvez dissesses...

Santa Isabel, 15 de agosto de 1870. (EF: OC, p. 459-460)

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