quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Gestação - Alessandro Brito


Sonho: esperanças vãs; imaginação sem fundamento; fantasia; que dura pouco; ideias quiméricas... Até poderia assim ser definido, se não fosse ele que movesse o meu mundo.
Grandes feitos e conquistas partiram dos devaneios de alguém perante alguma coisa, real ou até então irreal, mais para utópico do que qualquer outra coisa, mas que se concretizaram.
Passei a compreender que sonhos não são coisas grandiosas, mas, apenas, desejos que levam um maior período de tempo para se realizarem. Vivemos dias em que a ansiedade assola- nos, é sem dúvida o mal do século. A tecnologia contemporânea fez-nos mal acostumados, temos nossas necessidades do dia a dia supridas em cliks, e toda essa instantaneidade confundiu nossos anseios sentimentais.
Desaprendemos o significado do ato "esperar"!  Simplesmente não sabemos  mais como lidar em situações de espera, e não estou falando de filas e afins, compartilho um "causo" de minha infância (e adolescência de muitos) para contextualizar:

Quando moleque não havia celular, e telefone era coisa séria, usado apenas pelos adultos, quando estava enamorado de alguma cabrochinha, a oportunidade que tinha de vê- la, era apenas no colégio, e em horários pontuais: Entrada 07:00 ou 13:00; recreio e super rápido 20 min ou  na saída 12:40 ou 18:20, se desse sorte dela ser da mesma sala, era a glória!
Nesses casos odiávamos o fim da sexta- feira, adormecíamos querendo acordar na segunda. Mas ao despertar do sábado era uma festa só... E vou confessar, sinto saudades dos papéis de carta moranguinho que colecionava, já que não havia como ligar, a noite gastava o tempo escrevendo poesias pras meninas. Presentes, ganhávamos no dia do aniversário, dia das crianças e no natal, isso quem tinha o luxo de ganhar todas estas datas... E nunca tivemos problemas com ansiedade, a não ser um dia antes das excursões.

Hoje, todos temos acesso a internet (redes sociais, talks), aparelhos celulares que enviam fotos e fazem vídeo conferência e até ligações, além de uma infinidade de tecnologias (aquela dos clicks) para comunicação instantânea. O fato é, não crescemos crianças impacientes, nem nos tornamos adultos depressivos com tendências suicidas, movidos puro e simplesmente pelo alto grau de ansiedade. Conseguíamos respeitar que para tudo na vida havia um tempo, e  sempre haverá, pois para realizar um sonho ou saciar um desejo, os mesmos demandarão de uma parcela de tempo. E não estou falando de destino (coisa da qual sou totalmente descrente) onde as coisas acontecem no "tempo" em que terão de acontecer, isso jamais!

Mas, sei que em algum momento tudo se confundiu, principalmente em relação aos sentimentos, o que se aprendeu e o que se aprende não está mais definido em passado, presente e futuro.
Os casais não se formam  porque há uma admiração recíproca, talvez haja sim uma ciosidade de uma mesmo futuro (estar em um relacionamento) e talvez por isso, hoje a sociedade apresente esse quadro doente de pessoas (casais) infelizes, desgostosos e sem rumo...

Ele não é verdadeiramente especial pra ela, e nem ela é especial pra ele, o que existe são lacunas que "precisam" ser preenchidas, e são, mas infelizmente sem critérios. Qualquer uma que venha preencher aquele espaço vazio é mais que um candidato em potencial, movidos por uma ansiedade latente, não existem uma triagem de afinidades, idéias, filosofias... não importa o quanto sejam incomuns, se ele está disposto a ficar com ela, é o suficiente, formou- se mais um casal feliz para sempre! Será mesmo?! E quando os conflitos devido as diferenças começarem a incomodar?
Aceito o argumento de que o amor é imprevisível! Também acho, só que estou convencido nobre leitor, que o ser humano não é tanto quanto. Imagino que um casal onde um é vegetariano e o outro amante de carne vermelha (aquele que só como se a carne estiver sangrando) em breve entrarão em conflito. Mas que asneira, todos sabemos que "os opostos se atraem". Que radicalismo da minha parte, não? Mas usarei de um último argumento na tentativa de fazê- los entender porque penso dessa forma: Vejam, lá na paraíba costumamos discordar de alguns chavões, e "os opostos se atraem" é um deles, por um simples fato, respeitar é coisa mais difícil que um ser humano pode fazer, e tem mais, o ser humano tem toda uma inclinação ao negativismo, analisamos primeiro os defeitos para depois nos render as qualidades, logo, uma triagem simples nos indicaria se esse candidato é realmente um candidato em potencial. Em um primeiro momento a ansiedade não nos permite uma análise racional, o medo de ficar "só", a insatisfação de estar "só" sobrepuja a racionalidade, mas ao entrar em um estado de "satisfação" e "segurança" a racionalidade vem a tona, e junto a tendência ao negativismo e claro, a falta de respeito inconsciente que praticamos todo tempo, infelizmente o resultado é mais um rompimento, que na maioria das vezes gerará uma série de novos problemas.

Um casal deve gestar a intimidade, pois ela é a triagem perfeita para que ambos possam conhecer e criticar as diferenças, mas gestação leva tempo, e o tempo nesse caso é quase antônimo de ansiedade. 

3 comentários:

  1. Alessandro Brito - poeta nato!

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  2. Que insensível esse Aurélio ao definir sonho não?! Se o ser humano não fosse nato em sonhar tal definição bastaria para deixar essa "besteira" que é sonhar. Porém "Sigo sonhando, porque sonhar é meu fôlego de vida!".
    Estou com os Paraibanos discordando do chavão... Os opostos não se atraem, como diria meu querido Teatro Mágico: "Os opostos se distraem" e "perdem" um bucado de tempo.
    Gostou desse termo "Gestação" né?!... pensando bem é uma boa palavra pra definir um relacionamento... pois ele tem que ser gestado mesmo, desde a concepção, que depende da ação dos dois, e a gestação começa a ser cuidada e esperado por ambos, onde cada fase é importante para a perfeita formação e nenhuma etapa pode ser pulada, pois se assim não for o "feto" pode nascer prematuro e com deformações. Gostei disso!!! rsrsrs
    Fujo do debate ansiedade... ultimamente é a palavra que vem me definindo, então melhor me abster kkkk
    Mais uma vez uma ótima reflexão!!!

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  3. Gostei da analise da Camila
    E o que mais me chamou atenção no texto foi: "Ele não é verdadeiramente especial pra ela, e nem ela é especial pra ele, o que existe são lacunas que "precisam" ser preenchidas, e são, mas infelizmente sem critérios".
    Me ponho no papel de que alguém não é tão especial aos meus olhos, e que já não fui tão especial aos olhos de outra pessoa.
    Não defino o texto, mas defino o escritor, palavras de quem conhece de pessoas.
    Você meu querido conhece de pessoas, conhece da vida, como posso não gostar de alguém assim.
    Belo texto !!!!


    Paulo Mathias
    Mano Alessandro, sintetizaram outro dia o seguinte gostar de pessoas!

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