quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Se tornar o que é - Blog

Se tornar o que é

Que tempos são estes? Que tempos são estes nos quais as necessidades são luxos? Aliás, que tempo doentio é este no qual nem sequer sabemos descobrir nossas necessidades? Nietzsche no primeiro capítulo de Ecce Homo antecipando Foucault descreve belamente um “cuidado de si”. E o cuidado ou “amor de si” passa pela gestão cuidadosa da alimentação, clima, moradia e distração.

Da alimentação: “como você deve se alimentar para alcançar seu máximo de força?” O filósofo diz não se perdoar por ter chegado a esta questão tão tarde, por ter negligenciado por tanto tempo aquilo que era o mais importante, e por ter perdido tanto tempo correndo atrás de objetivos ideais. Até a maturidade comeu mal. A coisa toda é séria, pois uma má alimentação pode levar o indivíduo a negar a vontade de vida. Ele se abstinha do excesso de farinha, gordura, da dieta “canibal” dos ingleses (muita carne), do álcool e do café, por exemplo.

Do clima e da moradia: a ninguém é dado viver em qualquer lugar. O clima acelera ou retarda o metabolismo. O espírito é uma das formas do metabolismo, e aquele sofre, fica fraco, lento num clima que o esmaga, o desencoraja. O clima pode transformar alguém dotado de gênio em um “rabugento especialista” quando há um desacordo entre o clima e o espírito. “Minha vida se passou somente em lugares errados e realmente proibidos para mim (…). Tantos lugares nefastos à minha fisiologia”. Ele considerava melhor para si o ar seco, céu puro, atmosferas semelhantes as encontradas em Atenas, Jerusalém, Florença, Paris.

Da distração: o filósofo do bigode faz referência à leitura e à música. Estas são uma distração porque fazem nosso espírito caminhar com almas alheias, nos desprende de nós mesmos, nos faz vagar por terras desconhecidas. “Vinde a mim, livros agradáveis, livros espirituosos, livros inteligentes!” Ele sugere máximo rigor com aquilo que nos distrai, já que é o alimento do espírito. Nietzsche se alimenta de um pequeno número de livros, aqueles que provaram ser feitos para ele. Fortalecia-se com os escritos de Anatole France, Guy de Maupassant, Stendhal etc. Ele afirma não ter suportado sua juventude sem a música wagneriana. “O que espero realmente da música. Que seja alegre e profunda como uma tarde de outubro”.

Na elaboração de si através do cuidado com a alimentação, a moradia, o clima e a distração o autor de ‘A Gaia ciência’ aponta duas prudências.

A primeira se chama “gosto”. Prudência-gosto. É aprender a escolher, a selecionar, a não ficar exposto e assoberbado com muitas coisas. É belo o pensamento aqui. Não se trata de fechar-se ao mundo, ao novo. Mas evitar gastar energia dizendo “não”. Ficar sempre preso às pequenas recusas nos rebaixa. “O rechaçar, o não deixar que se aproximem é um gasto — não haja engano -, uma energia desperdiçada para fins negativos. Pela simples necessidade constante de defesa é possível tornar-se fraco a ponto de não mais poder se defender”. Imagine morar em uma cidade ou bairro onde quase tudo é contrário a seu gosto. Andar na rua, comer, conversar exigiria sempre recusas, sempre dizer não, sempre em estado de defesa, retenção. Tornamo-nos assim um porco-espinho para tudo repelir. Porém, bom para o espírito não são espinhos mas mãos abertas.

A segunda prudência indica que deve-se evitar tornar-se apenas um “reagente”. Isto é, evitar situações, lugares, coisas e pessoas que limitam a liberdade, a iniciativa. Fugir de situações nas quais só se pode reagir. Este princípio serve para qualquer relação. E fugir aqui não significa somente sair, afastar-se. Mas estar atento as nossas próprias atitudes em uma relação. Nietzsche faz referência a figura do erudito. Ele o qualifica de um decadente. Pois é incapaz de pensar, somente responde a estímulos. O erudito somente reage aos livros.

Causa espanto se deparar com este texto do filósofo alemão. Não pelo seu conteúdo. Mas pelo absoluto abandono das necessidades. Das nossas necessidades. O texto interroga o que fazemos com nossas necessidades.

Há um enorme número de pessoas, não se sabe exatamente quantas, no Brasil que não ingere o mínimo de calorias por dia , 2000, recomendadas pela Organização Mundial da Saúde. Para estas não está colada a questão da alimentação para aumentar a força, mas a luta macabra para não morrer de fome. Por outro lado temos hoje os índices mais altos do mundo, só abaixo dos EUA, em relação ao excesso de peso e obesidade. Nesta última categoria nada menos que 10 milhões de brasileiros. Uns não podem cuidar de si por conta da miséria. Outros por conta do relaxamento.

Poderíamos ir desenvolvendo ponto por ponto. Mas o exemplo da comida vale também para a moradia e a distração. Ou falta quase tudo ou estamos entupidos de lixo em todas as dimensões. O preço pelo abando no de si é bem alto. Pois trata-se da própria vida. Curiosamente quando se fala mais em cuidado, quando proliferam por todos os lados todos os tipos de especialistas, de doutores em tudo, quando constroem médias, padrões e limiares para todos os índices é quando tudo está indo mal. Fico me perguntando, se não estamos cuidando de nós, das nossos necessidades, estamos fazendo o quê? Estamos nos preocupando com o quê?

O filósofo alemão escreve que o cultivo de si através destas necessidades listadas é para que cada um “se torne o que é”. E esta é a tarefa urgente e mais difícil na vida. Se estamos tão desligados, abandonados, relaxados mesmo com a vida, é porque estamos querendo nos tornar outras coisas. Isto é, estamos assujeitados a valores, projetos e metas que não são nossos, que não possibilita a cada um ser o que é. Não podemos pensar que se trata de uma pura digressão no pensamento estas colocações.

Ora, pensemos. Se não se pode ou não se cuida do que come, de onde e como se vive e mora, daquilo que ler, escuta, assiste… o que é que se está a fazer na vida? Os pontos mais importantes são geridos por outros. Significa que a vida de cada um é governada, conduzida por outros. E esta é uma questão qualquer?

Compreendemos por que os poderes não dão folga nestes pontos. Poucos espaços, pouco incentivo, pouca liberdade para pensar e atuar nestas frentes.

É intolerável para qualquer regime político que cada um lute e trabalhe para se tornar o que é.

“Perguntarão por que relatei realmente todas essas coisas pequenas e, seguindo o juízo tradicional, indiferentes: estaria com isso prejudicando a mim mesmo, tanto mais se estou destinado a defender grandes tarefas. Resposta: essas pequenas coisas — alimentação, lugar, clima, distração, toda a casuística do egoísmo — são inconcebivelmente mais importantes do que tudo o que até agora tomou-se como importante. Nisto exatamente é preciso começar a reaprender.”

Fonte: https://medium.com/@textodeguerra/se-tornar-o-que-e-97f122797fc7

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