domingo, 24 de agosto de 2014

Momentos - Samilis

Fomos ver o mar, pra mim a noite estava amena.
Mas ele tremia de frio.
Dava pra ver umas estrelinhas, entre uma nuvem escura e outra.

Eu sei, você vai dizer que é o cenário perfeito para as minhas inspirações.
E, sim, geralmente seria.

Mas, cá pra nós.
Faltou.
Não é que ele seja uma má companhia, na verdade até certo ponto gosto dele.
É que, são os nossos costumes que estão espalhados demais em mim.
E eu, fiz a pior coisa numa situação assim. Comparei.

Fiquei pensando no que faria, caso fosse nós dois ali.
Você certamente bancaria o durão e fingiria o frio, você tiraria o sapato pra sentir a areia nos pés.
Iria me suspender lá no alto, e me rodopiar até eu ficar tonta.

Você daria falta da lua, e lembraria uma canção antiga.
Um poema talvez.
Você ia repetir que eu fico linda, assim com maquiagem borrada e vento nos cabelos.
E a gente ia rir tanto.
E, íamos falar coisas bobas e leves.
E no caminho pra casa, você colocaria a mão na minha perna, e me olharia com aquele seu olhar de aprovação.

Você, subiria comigo até a porta e me daria um beijo meio inseguro, Ligaria antes de dormir, pra dizer que nossa noite parecia cena de filme, e que escreveria sobre ela.

E, a gente escreveria sobre como é especial, cada momento dividido e somado por nós dois.

Em vez disso, o estranho tremia de frio.
E, reclamava sobre a suposta gripe que teria.
Franzia a testa, com as preocupações de trabalho e grana curta.
E, não entendia meu silêncio olhando o mar.
O estranho tinha na ponta da língua assunto de carros, negócios e viagens internacionais.
E, no caminho sua playlist tocava forró.
E, suas mãos não me tocaram com ternura, e sim com um quê de deixa eu ver se ela tem um corpo legal.

E, dai você vai entender a minha falta de inspiração sobre o estranho.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Chegada - Alessandro Brito

São mais de 3 anos de namoro comigo. Foram "anos incríveis", como os do Kevin Arnold, tantas inseguranças; descobertas; viagens; pessoas; lições; despedidas, tantas portas eu bati... Então rompi comigo e parti, decidido a me permitir compartilhar a vida com uma nova companheira, que está por vir.
Vim trilhando o caminho reverso do pau de arara, tentando fugir das futilidades das grifes e dos preconceitos, da frieza humana, da soberba que me cercava, deixando para trás a selva de pedra e buscando nova vida no sertão.
Cheguei até aqui, quase ileso. Cheguei, apesar de todas as incertezas dos meus passos.
Estou cansado, foi uma viagem difícil.
E para minha surpresa, não vejo um quadro muito diferente das mazelas das grandes metrópoles, muito embora ainda encontre valores que a tempos não via.
Ceguei e queria apenas um abraço, sincero, que eu pudesse confiar. Gostaria apenas que ela acalentasse também meus defeitos, não preciso que cure minhas feridas, nem que assuma a responsabilidade da minha felicidade.
Não gostaria de provar que valho a pena, queria apenas que fosse espontâneo, que desde o início fossemos avalistas dos riscos que a vida exige, e que assim seja o suficiente para nós. Que seja leve, sem mudanças radicais nem sacrifícios heroicos. Que possamos fazer valer as lições que aprendemos. Que o mundo fique lá fora enquanto estivermos dentro dele.
Meu coração não anda fraco apesar de todas as cicatrizes, talvez minha mente sim, fraqueje em alguns momentos, é falta de compreensão do que é a vida.
Figuro um sorriso... um olhar... e mantenho a esperança de enfim descansar em paz.

Tendo a lua de Os Paralamas do Sucesso

Ilmo Sr. Jones - Alessandro Brito


Espero minha breve partida
Desejando um reencontro com os que se foram.
Hei de preparar uma recepção
Para todos que em breve também partirão.

Minha alma de mil faces
Conheceu apenas uma realidade
Singularidade que iguala um todo
Que faz da existência um irônico jogo.

Dor cruel, saudade
Não importa se daqueles que ficam
Ou, se, daqueles que partem.

domingo, 17 de agosto de 2014

Rolleiflex - João

É tão difícil escrever algo pra você... ainda dói tanto...

Te amo até pra sempre!

"Não somos inimigos, mas amigos. Não devemos ser inimigos. Ainda que paixão o obrigue, não devemos romper nossa afeição. As cordas místicas da memória reviverão ao serem tocadas... tão certo como serão pelos anjos de nossa natureza". Abraham Lincoln

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Marimbondo

Era um terreno baldio

Que eu mesmo capinei

Com um surdo mal feito de lata

Uma escola de samba fundei

Usei corda na avenida

No desfile principal

Esquentava a bateria

Com pedaço de jornal

A minha escola cresceu

E o terreiro hoje tem cobertura

Quem ficou pequenino fui eu

Diante da nova estrutura

Eu quem fundou a escola

Entre trancos e barrancos

Na galeria de sócios

No lugar do meu nome tem um branco

E vou contar a minha mágoa, minha minha dor

Fui barrado na porta da escola que sou fundador

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Emoção - Roberto Riberti

-Por favor, me vê uma porção de emoção.
-No momento estamos em falta, serve sensação?
-Não, obrigado, eu quero emoção mesmo!
-Mas as sensações estão em promoção e estão saindo muito bem...
-Agradeço, sabe quando chega?
-Dizer a verdade faz tempo que não recebemos..
-Mas porque?
-Falta de demanda mesmo...as pessoas estão querendo uma vida mais light, entende?
emoções dão trabalho, tem que ser guardadas com cuidado, bem perto do coração...
-Mas tem tanta ‘emoção’ espalhada por aí...zombei.....
-Tudo falsa né, meu amigo? O pessoal tá vendendo como emoção, mas é tudo sensação barata. Aqui pelo menos somos honestos em dizer.
-E saberia dizer onde posso encontrar?
-Difícil hem amigo! Se for daquelas emoções profundas, então... nunca mais vi! acho que tiraram de linha......
-Obrigado então, tenha uma boa tarde!
E sai andando pela calçada, quando cruzei com uma linda mulher de olhar feito de lua.
Num ímpeto falei: - Você também está indo à procura da emoção?
A moça me olhou com espanto, deve ter pensado: - que cara mais esquisito, sujeito mais sem noção!
E eu todo envergonhado com o papel que tinha passado; mas uma coisa era certa:
aquele olhar de lua, toda aquela beleza, me trouxe algum tipo de alento, alguma ternura ímpar, que se não fosse trapaça, uma sensação fazendo pirraça, eu diria que por um acaso, naquele tênue momento, a emoção deu o ar de sua graça!

Marinês - Desabafo

domingo, 10 de agosto de 2014

Pra viver um grande amor - Carlos Drummond de Andrade

É preciso abrir todas as portas que fecham o coração.
Quebrar barreiras construídas ao longo do tempo,
Por amores do passado que foram em vão
É preciso muita renúncia em ser e mudança no pensar.
É preciso não esquecer que ninguém vem perfeito para nós!
É preciso ver o outro com os olhos da alma e se deixar cativar!
É preciso renunciar ao que não agrada ao seu amor...
Para que se moldem um ao outro como se molda uma escultura,
Aparando as arestas que podem machucar.
É como lapidar um diamante bruto...para fazê-lo brilhar!
E quando decidir que chegou a sua hora de amar,
Lembre-se que é preciso haver identificação de almas!
De gostos, de gestos, de pele...
No modo de sentir e de pensar!
É preciso ver a luz iluminar a aura,
Dando uma chance para que o amor te encontre
Na suavidade morna de uma noite calma...
É preciso se entregar de corpo e alma!
É preciso ter dentro do coração um sonho
Que se acalenta no desejo de: amar e ser amada!
É preciso conhecer no outro o ser tão procurado!
É preciso conquistar e se deixar seduzir...
Entrar no jogo da sedução e deixar fluir!
Amar com emoção para se saber sentir
A sensação do momento em que o amor te devora!
E quando você estiver vivendo no clímax dessa paixão,
Que sinta que essa foi a melhor de suas escolhas!
Que foi seu grande desafio... e o passo mais acertado
De todos os caminhos de sua vida trilhados!
Mas se assim não for...
Que nunca te arrependas pelo amor dado!
Faz parte da vida arriscar-se por um sonho...
Porque se não fosse assim, nunca teríamos sonhado!
Mas, antes de tudo, que você saiba que tem aliado.
Ele se chama TEMPO... seu melhor amigo.
Só ele pode dar todas as certezas do amanhã...
A certeza que... realmente você amou.
A certeza que... realmente você foi amada."

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

CONTRASTES - Augusto dos Anjos

A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina.
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério...

Se tornar o que é - Blog

Se tornar o que é

Que tempos são estes? Que tempos são estes nos quais as necessidades são luxos? Aliás, que tempo doentio é este no qual nem sequer sabemos descobrir nossas necessidades? Nietzsche no primeiro capítulo de Ecce Homo antecipando Foucault descreve belamente um “cuidado de si”. E o cuidado ou “amor de si” passa pela gestão cuidadosa da alimentação, clima, moradia e distração.

Da alimentação: “como você deve se alimentar para alcançar seu máximo de força?” O filósofo diz não se perdoar por ter chegado a esta questão tão tarde, por ter negligenciado por tanto tempo aquilo que era o mais importante, e por ter perdido tanto tempo correndo atrás de objetivos ideais. Até a maturidade comeu mal. A coisa toda é séria, pois uma má alimentação pode levar o indivíduo a negar a vontade de vida. Ele se abstinha do excesso de farinha, gordura, da dieta “canibal” dos ingleses (muita carne), do álcool e do café, por exemplo.

Do clima e da moradia: a ninguém é dado viver em qualquer lugar. O clima acelera ou retarda o metabolismo. O espírito é uma das formas do metabolismo, e aquele sofre, fica fraco, lento num clima que o esmaga, o desencoraja. O clima pode transformar alguém dotado de gênio em um “rabugento especialista” quando há um desacordo entre o clima e o espírito. “Minha vida se passou somente em lugares errados e realmente proibidos para mim (…). Tantos lugares nefastos à minha fisiologia”. Ele considerava melhor para si o ar seco, céu puro, atmosferas semelhantes as encontradas em Atenas, Jerusalém, Florença, Paris.

Da distração: o filósofo do bigode faz referência à leitura e à música. Estas são uma distração porque fazem nosso espírito caminhar com almas alheias, nos desprende de nós mesmos, nos faz vagar por terras desconhecidas. “Vinde a mim, livros agradáveis, livros espirituosos, livros inteligentes!” Ele sugere máximo rigor com aquilo que nos distrai, já que é o alimento do espírito. Nietzsche se alimenta de um pequeno número de livros, aqueles que provaram ser feitos para ele. Fortalecia-se com os escritos de Anatole France, Guy de Maupassant, Stendhal etc. Ele afirma não ter suportado sua juventude sem a música wagneriana. “O que espero realmente da música. Que seja alegre e profunda como uma tarde de outubro”.

Na elaboração de si através do cuidado com a alimentação, a moradia, o clima e a distração o autor de ‘A Gaia ciência’ aponta duas prudências.

A primeira se chama “gosto”. Prudência-gosto. É aprender a escolher, a selecionar, a não ficar exposto e assoberbado com muitas coisas. É belo o pensamento aqui. Não se trata de fechar-se ao mundo, ao novo. Mas evitar gastar energia dizendo “não”. Ficar sempre preso às pequenas recusas nos rebaixa. “O rechaçar, o não deixar que se aproximem é um gasto — não haja engano -, uma energia desperdiçada para fins negativos. Pela simples necessidade constante de defesa é possível tornar-se fraco a ponto de não mais poder se defender”. Imagine morar em uma cidade ou bairro onde quase tudo é contrário a seu gosto. Andar na rua, comer, conversar exigiria sempre recusas, sempre dizer não, sempre em estado de defesa, retenção. Tornamo-nos assim um porco-espinho para tudo repelir. Porém, bom para o espírito não são espinhos mas mãos abertas.

A segunda prudência indica que deve-se evitar tornar-se apenas um “reagente”. Isto é, evitar situações, lugares, coisas e pessoas que limitam a liberdade, a iniciativa. Fugir de situações nas quais só se pode reagir. Este princípio serve para qualquer relação. E fugir aqui não significa somente sair, afastar-se. Mas estar atento as nossas próprias atitudes em uma relação. Nietzsche faz referência a figura do erudito. Ele o qualifica de um decadente. Pois é incapaz de pensar, somente responde a estímulos. O erudito somente reage aos livros.

Causa espanto se deparar com este texto do filósofo alemão. Não pelo seu conteúdo. Mas pelo absoluto abandono das necessidades. Das nossas necessidades. O texto interroga o que fazemos com nossas necessidades.

Há um enorme número de pessoas, não se sabe exatamente quantas, no Brasil que não ingere o mínimo de calorias por dia , 2000, recomendadas pela Organização Mundial da Saúde. Para estas não está colada a questão da alimentação para aumentar a força, mas a luta macabra para não morrer de fome. Por outro lado temos hoje os índices mais altos do mundo, só abaixo dos EUA, em relação ao excesso de peso e obesidade. Nesta última categoria nada menos que 10 milhões de brasileiros. Uns não podem cuidar de si por conta da miséria. Outros por conta do relaxamento.

Poderíamos ir desenvolvendo ponto por ponto. Mas o exemplo da comida vale também para a moradia e a distração. Ou falta quase tudo ou estamos entupidos de lixo em todas as dimensões. O preço pelo abando no de si é bem alto. Pois trata-se da própria vida. Curiosamente quando se fala mais em cuidado, quando proliferam por todos os lados todos os tipos de especialistas, de doutores em tudo, quando constroem médias, padrões e limiares para todos os índices é quando tudo está indo mal. Fico me perguntando, se não estamos cuidando de nós, das nossos necessidades, estamos fazendo o quê? Estamos nos preocupando com o quê?

O filósofo alemão escreve que o cultivo de si através destas necessidades listadas é para que cada um “se torne o que é”. E esta é a tarefa urgente e mais difícil na vida. Se estamos tão desligados, abandonados, relaxados mesmo com a vida, é porque estamos querendo nos tornar outras coisas. Isto é, estamos assujeitados a valores, projetos e metas que não são nossos, que não possibilita a cada um ser o que é. Não podemos pensar que se trata de uma pura digressão no pensamento estas colocações.

Ora, pensemos. Se não se pode ou não se cuida do que come, de onde e como se vive e mora, daquilo que ler, escuta, assiste… o que é que se está a fazer na vida? Os pontos mais importantes são geridos por outros. Significa que a vida de cada um é governada, conduzida por outros. E esta é uma questão qualquer?

Compreendemos por que os poderes não dão folga nestes pontos. Poucos espaços, pouco incentivo, pouca liberdade para pensar e atuar nestas frentes.

É intolerável para qualquer regime político que cada um lute e trabalhe para se tornar o que é.

“Perguntarão por que relatei realmente todas essas coisas pequenas e, seguindo o juízo tradicional, indiferentes: estaria com isso prejudicando a mim mesmo, tanto mais se estou destinado a defender grandes tarefas. Resposta: essas pequenas coisas — alimentação, lugar, clima, distração, toda a casuística do egoísmo — são inconcebivelmente mais importantes do que tudo o que até agora tomou-se como importante. Nisto exatamente é preciso começar a reaprender.”

Fonte: https://medium.com/@textodeguerra/se-tornar-o-que-e-97f122797fc7