domingo, 17 de fevereiro de 2013

Rio vermelho - Cora Coralina

Longe do Rio Vermelho. 
Fora da Serra Dourada. 
Distante desta cidade, 
Não sou nada, minha gente. 
Sem rebuço, falo sim. 
Publico para quem quiser. 
Arrogante digo a todos. 
Sou Paranaíba para cá. 
E isto chega pra mim. 
Rio Vermelho das janelas da casa velha da Ponte... 
Rio que se afunda de baixo das pontes. 
Que se reparte nas pedras. 
Que se alarga nos remansos. 
Esteira de lambaris. 
Peixe cascudo nas locas. 

Rio, vidraça do céu. 
Das nuvens e das estrelas. 
Tira retrato da Lua. 
Da Lua quarto-crescente 
que mora detrás do morro. 
Lua que veste a cidade de branco 
e tece rendado de marafunda 
na sombra das cajazeiras. 

Rio de águas velhas. 
Roladas das enxurradas. 
Crescidas das grandes chuvas. 
Chovendo nas cabeceiras. 
Rio do princípio do mundo 
Rio da contagem das eras. 
Rio - mestre de Química. 
Na retorta das corredeiras, 
corrige canos, esgoto, bueiros, 
das casas, das ruas, dos becos 
da minha terra. 
Rio, santo milagroso. 
Padroeiro que guarda e zela 
a saúde da minha gente, 
da minha antiga cidade largada. 
Rio de lavadeiras lavando roupa. 
De meninos lavando o corpo. 
De potes se enchendo da água. 
E quem já ficou doente da água do rio? 
Quem já teve ferida braba, febre malina, 
pereba, sarna ou coceira? 
Rio, meu pobre Jó... 
Cumprindo sua dura sina. 
Raspando sua lazeira 
nos cacos dos seus monturos. 
Rio, Jô que se alimpa, 
pela graça de Deus, Virgem Santa Maria, 
nas cheias de suas enchentes 
que carregam seus monturos. 
Ponte da Lapa da minha infância... 
Da escola da Mestra Silvina, 
do tempo em que eu era Aninha... 
Ponte do Carmo, querida, 
dos namorados de longe. 
Por onde passava enterro, 
dos anjinhos de Goiás, 
que iam pro cemitério, 
pintadinhos de carmim. 
Caixãozinho descoberto. 
E a música tocando atrás 
A Valsa da Despedida. 

Ponte nova do Mercado 
- foi pinguela do Antônio Manuel, 
banheiro da meninada. 
Ponte do Padre Pio dos potes d’água. 
Carioca de nós todos. 
Pinguelona dos destemidos, 
contando a estória de um sino. 

Sino grande, impensado, 
nas locas da cachoeira. 
Sino da Igreja da Lapa, 
que rodou na grande enchente 
tocando pro rio abaixo. 
Até que parou imprensado 
nas pedras da Pinguelona. 

Gente que passa ali perto 
conta estória do sino: 
inda toca à meia-noite 
quando a cidade se aquieta, 
e as águas ficam dormindo. 
Tange,pedindo uma graça: 
Que algum cristão caridoso, 
o salve daquele poço, 
o tire debaixo d’água. 
Pois seu destino de sino 
é no de uma torre 
abençoando a cidade. 
Dando aviso para o povo 
- louvar a Deus poderoso. 

Poço da Mandobeira... 
Poço do Bispo... 
Poço da Carioca... 
Sombras de velhos banhistas dos velhos tempos. 
Sabão do Reino no bolso. 
Toalha passada ao ombro. 
Cigarro de palha no bico. 
A vitamina do banho. 
Banho da Carioca. 
Águas vitaminadas... 
Rio vermelho - meu rio. 
Rio que atravessei um dia 
(Altas horas. Mortas horas.) 
há cem anos... 
Em busca do meu destino. 

Da janela da casa velha 
todo dia, de manhã, 
tomo a bênção do rio: 
- “Rio Vermelho, meu avozinho, 
dá sua bença pra mim...” 

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